06 novembro, 2013
A Moça da Vivo
09 novembro, 2011
sobre crises e homens
Ah, tá, vai dizer que você nunca se descabelou, gritou, chorou, ameaçou pular da janela ao lado de um espécime masculino e a criatura respondeu da maneira mais irritantemente leve que você está exagerando, que isso passa, que deve ser só TPM... Será possível que eles não entendem que toda a minha vida está dependendo desse momento tortuoso que estou atravessando agora e que dele depende todo o resto da minha existência!?!? Será possível que eles não entendem que o fato do diretor não ter achado o meu roteiro o mais inacreditável do planeta, que eu ter ganho dois kilos,que eu ainda não ter sido premiada com o Jabuti, que eu ter feito 29, que eu ter feito 29 e ainda não conhecer a África, que eu ter feito 29 e estar com crise de personalidade... não é motivo suficiente para eu me acabar em lágrimas?! Eu acho que eles devem ter tipo um pacto monstruoso com seus próprios inconscientes.
Sim, porque eu acredito que eles devam sofrer de todo tipo de mazelas da alma, do espírito, do coração, mas são incapazes de demonstrar um só pingo de desespero. E ainda tratam o nosso desespero com tanta graça e com um carinho tão despretensioso nos cabelos que, por um momento, o desespero se multiplica automaticamente por um zilhão mais infinito.
“Como assssiiimmmm não é nada?!?!” “Não, não vai passar!!!”
Tá que, no momento seguinte, a gente até se desarma, quem sabe até ri do próprio exagero, às vezes, esse carinho basta para que 57% do desespero amenize... Mas vamo combinar?! Custa ser mais solidário, e entender que, se você está em crise é porque é muito sério?
Não, juro que não to sendo irônica. É sério mesmo. Eu, por exemplo, to passando por uma crise sem precedentes, to numa concha, com a vista embaçada e nem um marinheiro desfaria o nó da minha garganta. Mas Caio tem uma leveza que me desequilibra. Não sei se saio gritando, ou se desencano e vou jogar vídeo game. Ele tem uma maneira quase sombria de me olhar chorando, limpar minhas lágrimas, e dar o sorriso mais lindo do mundo. “Calma, flor...”. “eu.. eu... tooo, to, calllmaa.”
Eu tô calma. (não, não tô, sério). Mas a gente precisa de força pra sair de um buraco que a gente cai fundo vez ou outra. E se você também tem ao seu lado um pai, um marido, um amigo, um namorado, um amante, um porteiro, um colega de trabalho, um companheiro de academia, ou qualquer outra criatura da espécie humana, gênero masculino que ousa, só ousa, levar sua crise de maneira leve e bem humorada. Então meu bem, sorria, porque, talvez, esse seja o seu feijão de força pra ajudar a sair desse buraco. De forma independente, tá? Por favor.#
# tá, confesso que o meu “independente” inclui sessões de análise, mas, ninguém é de ferro, bein. E se Freud levou anos pra criar, por que a gente não deveria usufruir?
19 agosto, 2011
do tempo
Me lembro dos tempos de liberdade, quando praia era sinônimo de vodka com bala no cair da tarde.
Nem sei se era mesmo uma liberdade, mas a função de abrir meu cabeção foi cumprida deliciosamente bem. O Brasil todo caminhava para seus tempos glórios quando, ele próprio, estava passando de coitado sub terceiro para imperialista dos mais pobres, orgulhando-se de suas multinacionais emporcalhando os jardins vizinhos. Um tempo de histeria moralista, onde as igrejas evangélicas angariavam fiéis tristes com a mesma velocidade que crianças nascem. Alguns anos antes de conhecermos a ditadura da saúde fictícia, onde fumar cigarro viraria sinônimo de perseguição.
Eu percebia isso tudo com o filtro do LSD. Mas liberdade hoje é diferente, ela existe na folga do trampo das 10h às 18h e pode ser adquirida em até três parcelas fixas em algum site de compras coletivas.
Mas eu estava dividida naquele tempo (e ainda). Nunca fui de agir muito. Atitude não é minha moda. Na verdade, moda nem é minha moda. Eu entendo tudo e, no máximo, tagarelo pra meia dúzia. Tudo bem. Os goles me satisfaziam
Não mais. Quero viajar mais, pra mundos e lugares. Fazer chá de vida e beber ainda quente.
03 fevereiro, 2009
Sobre o Adeus II
Pessoas comentaram comigo sobre ele.
Perguntaram se eu já tinha lido vários bilhetes... ( já, já li vários. a maioria publicados)
E ficaram curiosas...
Ok, vou postar um aqui, um que me chamou especial atenção por ser um bilhete muito atípico. Triste, doído. Mas simples, sutil... Quase sem pretensão.
Ele foi deixado por um homem. 56 anos. que era carcereiro ( pela profissão, parece que foi um homem simples)
Ele se matou com disparo de arma de fogo. E a mensagem estava datilografada
"Dr. ou Dra.
1- Eu era alcoólatra
2- Fui internado três vezes
3- Estou em tratamento no serviço de Psiquiatria há sete anos.
4- Porem fazem cinco anos que eu parei de beber, não bebo bebida alcoólica nenhuma, mas nem cerveja.
5- Eu vinha bem durante esse tempo (os cinco anos) estava tomando o haldol e o fenergan.
6- Mas o ano passado (agosto ou setembro) tive uma pequena recaída, andava um pouco nervoso, dormindo pouco e tremia um pouco as mãos.
7- A médica trocou os remédios o haldol e o fenergan para o neozine de 100, mas o neozine de 100 me dá um pouco de sono há mais.
8- Agora eu tive esta recaída, mas não foi por causa da bebida, porque realmente fazem cinco anos que eu não bebo nada mesmo."
Esse bilhete foi retirado de uma tese sobre o tema
SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO
Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP
Autor: Marcimedes Martins da Silva
21 janeiro, 2009
SOBRE O ADEUS
Porque eu queria entender mais sobre as pessoas e seus signos
(não, não são aqueles do zodíaco, pelo amor de deus!)
Eu estou preparando uma monografia sobre bilhetes de suicídio.
Porque sim, as pessoas se matam! Quer dizer, as pessoas nem sempre se matam. Elas deixam de viver.
Por mais que a nossa mesquinha e recalcada sociedade ainda não aceite isso. Tanto não aceita que a mídia, esse grande deus que nos diz como temos que pensar, não noticie (ou raramente noticie) esse tipo tão específico de morte.
E não sou eu que to dizendo isso! Dentre as minhas pesquisas, eu li um livro incrível de um jornalista ( não menos incrível) chamado Arthur Dapieve . O livro chama-se “Morreu na Contramão” e defende, por A mais B, isso que eu disse. Vale a pena!
Mas voltando ao elas deixam de viver... A Maria Lucia Dias sacou isso ao estudar um monte de bilhetes de suicídio.
“Pára o mundo que eu quero descer”. É bem isso.
Porque uma das certezas que a gente tem (por mais que se negue) quando estamos vivos, não é só a de que vamos morrer. Mas a de que podemos morrer. Se e quando quisermos.
E isso é tão libertador. Sim, porque lá no fundo todo mundo sabe que, se tudo der errado, mas muito errado mesmo, ainda tem uma saída.
Mas eu não me interesso pela saída. Me interessa o adeus.
Para uma apaixonada pelas letras, me interessa conhecer essas mensagens e o que elas têm de tão valiosas. Tão únicas. Tão importantes a ponto de serem a última coisa (ou A Coisa) que mereça ser escrita antes de deixar esse mundo. Aquilo que merece ser dito pela última vez. O último recado.
Às vezes é uma mensagem de alívio... tão calma e serena.... Às vezes é uma culpa, culpa de alguém, culpa do mundo... às vezes é uma dor sem tamanho... enfim...
Mas são, e dizem, algo dessas pessoas.
E como os livros dizem dos autores. E dizem de nós. E as músicas dizem dos compositores. E dizem de nós. E até os blogs dizem de seus escrivinhadores. E dizem daqueles que os lêem. É preciso aceitar que os bilhetes de adeus deles, dizem de nós.
E dizem do mundo que NÓS vivemos, e que ELES deixaram. E dizem das nossas dores. E de nossas culpas.
Bilhetes de suicídio talvez seja a literatura mais underground que exista. A mais proibida. A mais foda mesmo!
E mesmo assim. E talvez por isso. Seja uma literatura.
É uma literatura? É se alguém o lê. É se sentimos fundo ao lermos.
Eu leio. E sinto.
"O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."
Manuel Bandeira